Saúde mental no Terceiro Setor: como OSC’s podem cuidar das equipes para potencializarem o impacto social

Um levantamento divulgado pelo Ministério da Previdência em 2024 revelou que houve um aumento de 62% nos afastamentos de trabalhadores, em razão de problemas ocasionados pelo desequilíbrio da saúde mental. Os números preocupam, já que o percentual representou 440 mil pessoas com diagnósticos de transtornos mentais e comportamentais.

Desse modo, dar atenção ao estado emocional dos colaboradores é dever de todos os segmentos da sociedade, sejam eles econômicos ou sem fins lucrativos. A recomendação também serve de alerta para as OSC’s (Organizações da Sociedade Civil) que desejam gerar um impacto social real e duradouro.

Afinal, os envolvidos nas causas do terceiro setor convivem diariamente com pressões internas e externas, como, por exemplo, gerenciamento de recursos limitados e inconstantes, testemunharem in loco situações de desumanidades e ainda, por criarem laços emocionais com as pessoas assistidas.

Diante desse cenário, preparamos um artigo para destacar alguns exemplos de cuidados que devem ser tomados com as equipes de trabalho.

Qual é o atual cenário de problemas com saúde mental no Brasil?

Inicialmente, é preciso esclarecer que transtornos mentais e comportamentais registrados no país apresentaram crescimento de 400% em uma década (série histórica 2014 a 2024). A informação do Ministério da Previdência, responsável pelo estudo, detalha que os diagnósticos com maior recorrência foram: transtornos de ansiedade, episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente.

Com esse entendimento, vale destacar que os colaboradores de instituições do terceiro setor estão incluídos nos dados oficiais, tendo em vista que lidam constantemente com:

  • comunidades que apresentam agudo estado de miséria,

  • animais submetidos a situações extremas de maus-tratos,

  • grupos empresariais sem comprometimento com a preservação dos recursos naturais do planeta.

Os problemas identificados cresceram de tal modo que a instituição Health Foundation publicou os resultados de uma pesquisa recente, desenvolvida especificamente com trabalhadores de OSCs. O resultado surpreendeu o setor, pois colaboradores que atuam em instituições do terceiro setor têm 20% mais chances de apresentarem esgotamento profissional (burnout), ansiedade e depressão.

Desse modo, as OSC’s devem oferecer um ambiente de trabalho no qual as pessoas se sintam seguras e acolhidas. Em curto prazo, será verificado que os indivíduos responderão positivamente, com reflexos na criatividade, motivação e engajamento das ações realizadas.

Por que o cuidado com a equipe é essencial para o impacto social?

Uma equipe saudável mentalmente é mais criativa, motivada, engajada e produtiva. O bem-estar dos colaboradores está diretamente ligado à qualidade dos serviços prestados, à efetividade das ações e à capacidade da organização de manter talentos.

Além disso, quando o ambiente é acolhedor e seguro, o trabalho em equipe é fortalecido, os conflitos são minimizados e a missão institucional ganha mais força. Em contraste, ambientes tóxicos podem gerar alta rotatividade, baixa produtividade e queda no impacto social.

Um exemplo prático pode ser verificado no atendimento de comunidades em situação de vulnerabilidade social. Os colaboradores responsáveis pelo atendimento terão que coletar e analisar dados para identificar as prioridades do grupo. Portanto, precisam adotar uma escuta ativa e serem perspicazes em relação aos relatos e detalhes das condições de vida.

Para que essas ações sejam eficazes, é fundamental criar uma cultura organizacional baseada no cuidado, na empatia e na transparência. A liderança tem papel essencial nesse processo e deve adotar uma postura humanizada, aberta ao diálogo e comprometida com o bem-estar de todos.

Ferramentas como pesquisas de clima organizacional, avaliações de desempenho com foco em qualidade de vida e feedbacks constantes ajudam a mensurar e melhorar continuamente o ambiente de trabalho.

Estratégias para promover saúde mental nas OSCs

É importante reforçar que trabalhar em contextos humanitários apresenta vários desafios para as equipes de instituições do terceiro setor. Em várias situações, os membros da equipe se deparam com situações que podem ser consideradas criminosas, aplicadas a seres humanos de diferentes idades.

Esses casos são os que provocam maior carga de ansiedade e estresse, sem contar que o número de voluntários é sempre baixo diante da quantidade de vidas que precisam ser resgatadas. Por isso, se não tiverem suporte psicológico adequado, podem adquirir doenças físicas e mentais.

É válido acrescentar que os responsáveis pela saúde mental dos colaboradores e voluntários são as OSC’s nas quais trabalham. Dito isso, elencamos a seguir algumas iniciativas que proporcionarão mais segurança e sensação de bem-estar, confira:

  • Aplicar treinamentos sobre saúde mental, explicando a importância de conhecer os motivos dos transtornos e que é preciso pedir ajuda quando sentir determinados sintomas;

  • Treinar os diretores, gerentes ou coordenadores para que saibam agir em situações extremas, ou ainda, como podem adotar um diálogo amistoso com as equipes;

  • Ter consciência de que precisam cuidar da própria saúde, e não somente das dificuldades dos outros;

  • Ter na equipe profissionais como psicólogos e psicopedagogos, que saibam como agir em casos de crises emocionais;

  • Criar o sentimento de pertencimento e cuidado entre os colegas de trabalho, de modo que possam ajudar uns aos outros.

Como viabilizar projetos de saúde mental com recursos limitados?

A escassez de recursos não pode ser desculpa para negligenciar a saúde mental da equipe. Muitas iniciativas podem ser implementadas com criatividade e colaboração, entre as quais:

  • parcerias com universidades,

  • mentorias internas,

  • grupos de apoio — são alternativas que demonstram resultados eficientes.

Outro ponto relevante para ser evidenciado com ajuda dos responsáveis pela comunicação da OSC são campanhas de conscientização como Janeiro Branco, com enfoque em promover a saúde mental e emocional dos funcionários. Do mesmo modo, o Setembro Amarelo também deve receber uma atenção especial, pois trata-se de identificar e amparar pessoas com tendências suicidas.

Por fim, outra sugestão é realizar campanhas específicas para atender a população e os próprios funcionários, no que diz respeito a oferecer tratamentos psicológicos.

Construindo um ambiente de trabalho sustentável

Para que essas ações sejam eficazes, é fundamental criar uma cultura organizacional baseada no cuidado, na empatia e na transparência. A liderança tem papel essencial nesse processo e deve adotar uma postura humanizada, aberta ao diálogo e comprometida com o bem-estar de todos. Ferramentas como pesquisas de clima organizacional, avaliações de desempenho com foco em qualidade de vida e feedbacks constantes ajudam a mensurar e melhorar continuamente o ambiente de trabalho.

Como foi possível observar, cuidar da saúde mental não é um luxo: é uma estratégia inteligente, eficiente e necessária para as OSC’s que desejam cumprir sua missão com integridade e longevidade. Mesmo com orçamentos enxutos, é possível adotar medidas concretas que coloquem as pessoas no centro das prioridades.

Quando a equipe está bem, o impacto social se multiplica. Porque por trás de cada projeto transformador, existe uma rede de pessoas que também precisa ser cuidada com carinho, respeito e humanidade.